27 abril 2010

Telhados de vidro

Queria perceber a razão das escolhas que fiz. Porque escolhi ser quem sou? Não sei... E não sei também o que me leva a bater tão fundo, a ser tão baixa com quem em nada influenciou o marasmo onde estou. O tempo cura tudo, dizem... Mas o que vejo é que o tempo fere cada vez mais profundamente quando volta atrás repetidamente na minha cabeça. De que serve tentar perceber porque o fiz? De que serve perseguir a razão? Não há nada a fazer! Esperança? de quê? Escolhi este caminho, não adianta esperar os frutos de outro. Não sei o que vai acontecer amanhã. Já pensei que tinha força para enfrentar o mundo sozinha, agora sei que não tenho... Nem sei para onde vou. Estou invisível, até para mim própria. Estou farta de andar às voltas no mesmo círculo. Quero acreditar num mundo melhor, numa vida melhor, mas não consigo. Já não acredito em mim. Estou demasiado dependente das minhas fantasias para continuar neste rumo e a realidade insiste em derrubá-las dia após dia perante os meus olhos. Mas eu não quero ver! E por isso recomeço, o mesmo caminhar errante sobre os estilhaços do meu telhado de vidro que há muito se partiu.

Suspiro...

Será que este movimento esteriotipado não me abandona? Chego, afasto os lençois, suspiro (por vezes em silêncio, outras nem por isso...) e deito-me. A insónia vem, consome-me, morde-me a consciência. Construo e destruo mentalmente os caminhos que devia ter escolhido, até que o cansaço me vence. E quando tudo parecia tranquilo, aparece mais um dia de realidade putrefacta no meio do nojo que me rodeia. Um ou outro momento em que sorrio e me esqueço da desgraça em que insisto viver, mas quando chega a hora de me confessar à almofada, acordo outra vez e é aí que vejo claramente que tem que ser assim porque se não for, não tarda estou a viver outra vez na ilusão de que é possível voltar atrás como se nada tivesse acontecido... Já me vejo a imaginar que a realidade não existe... que não sou só eu que estou só. Que crueldade! Como é que me transformei nesta pessoa? Não quero ser assim... Prefiro suspirar todas as noites sem ninguém ver e encharcar a almofada em lágrimas.